Jucá saiu. Quem será o próximo? Por Plácido Faria

No momento político brasileiro duas coisas são difíceis de acontecer, a Presidente Dilma voltar ao cargo e o Presidente em exercício governar. A primeira, a única possibilidade plausível seria por decisão do Supremo Tribunal Federal, já que o Senado já sinalizou a sua posição final. A segunda, Temer governar sem a presença de Cunha e, o povo não se manifestar nas ruas, inclusive, promovendo greves. É verdade que ele conta com o Congresso Nacional, desde que, satisfaça seu criador, o Deputado Eduardo Cunha, que apesar de afastado do exercício do cargo continua “vivinho da silva”.

Outro fato negativo é a péssima imagem do Brasil no exterior. Nosso país nunca contou com o conceito que desfruta agora. Entretanto, olhando a regra do poder, Temer está com ótima estratégia política, moderado e medindo as palavras.

As críticas em relação ao seu primeiro discurso são improcedentes. Na entrevista ele não quis propositadamente falar sobre o futuro de seu governo e a problemática brasileira. A finalidade era se apresentar à Nação, demonstrando serenidade, tranquilidade e de lambuja mostrar a sua vida profissional fora da política.

Não era o momento adequado para tocar nos pontos polêmicos que irá possivelmente enfrentar. Ali estava o “Presidente bondade”, o verdadeiro virá depois, quando o Senado declará-lo Presidente da República do Brasil, caso não haja outra decisão do Supremo Tribunal Federal.

Nada impede depois do julgamento pelo Senado que a Presidente Dilma destituída, proponha a ação para anulação da decisão, isto não embota a independência do Congresso Nacional. Inclusive a tese ficou robustecida com a decisão que suspendeu Eduardo Cunha.

A Constituição é clara, o Presidente para sofrer impeachment tem que ter praticado crime de responsabilidade!

O trabalho para retirar a Presidente Dilma do poder não foi obra do acaso, como também não foi de um dia para outro, a tarefa sistemática obedeceu diversas etapas conspiratórias, onde existiu uma conjunção de fatos e esforços comuns. Com a participação da mídia, de boa parte da elite empresarial brasileira, do judiciário e do grupo político que está longe do poder há muitos anos. É verdade que ela contribuiu sensivelmente para que se conseguisse tal desiderato, senão vejamos.

Noticia-se que é pacífico entre os políticos, servidores e demais agentes públicos que tiveram a oportunidade de laborar com a Presidente Dilma, ser a mesma possuidora de temperamento forte, que repercute no trato com os subordinados e na ausência de habilidade em negociar com parlamentares e lideranças empresariais.

O Poder Executivo anseia por ter o melhor relacionamento possível com pelo menos a maioria do Parlamento, em qualquer lugar do mundo. Na contramão dessa afirmativa a Presidente não soube escolher Ministros hábeis, ao revés, alguns até foram considerados antipáticos, o que inviabilizou qualquer tipo de articulação política em prol de aprovar medidas legais que promovessem o desenvolvimento do País.

A Presidente também demonstrou falta de experiência política, quando por pressão de manifestações das ruas reduziu Ministérios, mas não os efetivamente desnecessários. Extinguiu por exemplo a secular Secretaria de Segurança Institucional, que à época possuía como Ministro o General Elito, exímio militar e estrategista reconhecido internacionalmente, perdendo importante aliado para lhe ajudar com as dificuldades que estava enfrentando. Aliás vale ressaltar que uma das primeiras medidas de Temer, Presidente interino, fora recriar a secretaria. Por que será?!

Não raro, sofria pressão do Ex-Presidente Lula para que nomeasse figuras políticas com melhor trânsito no Congresso, mas insistentemente resistia em manter as mesmas figuras antipáticas, ela e o Ministro Aloísio Mercadante era dose dupla de inabilidade política. Somente decidiu acertadamente, por exemplo nomeado o ministro Wagner para a Casa Civil, reconhecidamente grande negociador, quando seu governo estava na UTI.

Perdeu popularidade, perdeu votos de parlamentares, quem sabe, perdeu até simpatia de seus mais próximos aliados.

Assim a Presidente ficou sitiada, sem diálogo com o Congresso Nacional, com o Poder Judiciário e não dava satisfação à Nação.

Aproveitando-se do quadro acima descrito, os golpistas utilizavam os meios de comunicação diuturnamente para atacar diretamente o governo em todas as áreas e pessoalmente a Presidente.

Apesar da metralhadora giratória, vale registrar com tintas fortes: QUE EM MOMENTO ALGUM EXISTIU ACUSAÇÃO DE CRIME DE RESPONSABILIDADE, OU MENOS, DE CONDUTA PESSOAL DA PRESIDENTE QUE DEMONSTRASSE AUSÊNCIA DE ZELO COM O DINHEIRO PÚBLICO. POR ESSES MOTIVOS, CRIARAM UMA NOVA TEORIA “CONJUNTO DA OBRA”, INEXISTENTE NO DIREITO CONSTITUCIONAL MUNDIAL.

Um governo já tem enorme dificuldade quando legítimo, imaginem, no caso, de Temer, que assume a Presidência da República conspirando e de forma ilegítima. Além do mais, seu poder é exercido juntamente com Eduardo Cunha, auxiliado por vários Ministros famigerados na sua honra. O estrago pode ser de grande amplitude, só para se ter uma ideia, em sua mesa encontra-se o Projeto de Lei 131 do Senado Federal, originário de um grande lobby de empresas estrangeiras, cuja liderança e relatoria coube ao Senador golpista José Serra. Trata-se de mais um crime de lesa-pátria, visto que afeta nossa soberania e entrega nosso petróleo para o capital internacional.

Ademais, o desgaste em pouco tempo do governo interino é de assustar. Não resta dúvida, a sua continuidade seria o maior retrocesso da história brasileira. Todos os programas sociais seriam extintos, os direitos e garantias individuais estariam em perigo, como também, a saúde pública, as universidades públicas, a autonomia dos poderes e o mais importante, a democracia e a soberania nacional estariam feridos de morte.

A tática já ficou evidenciada, os golpistas aproveitariam os últimos suspiros de prepotência e liderança de Cunha, apresentando um pacotaço na Câmara dos Deputados, que momentaneamente o governo conta com mais de 2/3. No Senado são “outros quinhentos”. Qualquer projeção para o futuro da política brasileira é temerária, com o perdão do trocadilho.

Parece piada, o Ministro do Trabalho do “desgoverno” transitório, afirmou ter alergia à Justiça do Trabalho, posto que, ela é cega e burra e que dinheiro de empresário não cai do céu. Vale noticiar outro despautério, a medida Provisória n. 726, de 12 de maio próximo passado, extinguiu a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com deficiência, colocando na orfandade mais de 45 milhões de brasileiros. É verdade que referidos fatos poderão ser consertados posteriormente, entretanto, enquanto isso não acontece, o psicológico da nação brasileira fica mais abalada ainda. Somos um transatlântico à deriva.

O quadro é desolador, o grito de “Volta Dilma, minha querida e o Fora Temer” tem sido constante no país. Até mesmo, recentemente em Belo Horizonte.

Ontem, 23 de maio, o Golpe que venho denunciando nos outros artigos, juntamente com a grande maioria de outros articulistas, políticos e intelectuais, ficou provado de uma vez, com a divulgação da gravação de um diálogo entre o então Ministro do Planejamento Romero Jucá e Sergio Machado, onde tudo se explica. O governo e seus adeptos fascistas não têm como se defender. Incrível a atualidade da frase do filósofo grego Epicuro “A Justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem”.

O golpismo praticado recentemente no nosso país, acredito, que em matéria de cinismo não existe similar na história mundial da civilização moderna, ultrapassou todos os limites. Vejamos pequeno trecho, da gravação do Ex-ministro mais forte do governo Temer, transcrito da coluna tempo presente, do Jornal A Tarde, de Levi Vasconcelos : “Só o Renan que está contra essa porra. Porque não gosta de Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra” Romero Jucá, na gravação com Sergio Machado, da Transpetro, explicando por que Renan Calheiros hesitava em apoiar o impeachment de Dilma. “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio”Sérgio Machado, dizendo que Aécio Neves será o próximo a ser fisgado por Rodrigo Janot.

Depois dos fatos citados, Michel Temer com medo que Jucá jogasse M… no ventilador, o apoiou, ao dizer que ele continuará colaborando com seu governo.

Hoje, Michel “Treme”, o povo “Dança” e Dilma Descansa. O trocadilho sai, Jucá cai, em breve, outro Ministro também sai. Quem será o próximo?

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Plácido Faria
Advogado e comentarista político.
placidofaria@yahoo.com.br