Na Liberdade, Ilê Ayê faz o primeiro desfile comemorativo de 45 anos; fotos

Fotos: Mateus Pereira e André Frutuôso

‘Que Bloco é esse?’, a pergunta feita pela música de Camafeu de Oxossi há 45 anos continua dando o tom da admiração e da surpresa daqueles que apreciam a passagem do bloco afro Ilê Aiyê. O Mais Belo dos Belos realizou na noite de sábado (02/03), no Curuzu, mais um ritual de saída, que envolve práticas da religiosidade africana, o forte toque da percussão, a apresentação da Deusa do Ébano 2019 e o pedido de paz para o Carnaval de Bahia. Depois é só subir a Ladeira do Curuzu e ocupar a cidade com sua beleza e nobreza, elevando a auto estima da comunidade negra.

Essa autoestima era perceptível para quem lançava o olhar para a multidão que aguardava o início da cerimônia religiosa presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu. Em meio a aglomeração, estava o casal de aposentados Reginaldo Gonçalves, 62 anos, e Evanildes Gonçalves, 52. Eles acompanham o Ilê Ayê desde a fundação, mas começaram a sair no bloco no ano de 2014. “Quando estamos vestidos com a fantasia do Ilê Aiyê nestes três dias é que sentimos nosso respeito. O Ilê sempre está progredindo em defesa dos negros” disse Reginaldo. Logo em seguida a fala dele foi complementada pela da esposa Evanildes que sentenciou “Essa roupa é um passaporte, quando chegamos com ela, tudo de bom acontece”.

Fundador e presidente da entidade, Antônio Carlos Vovô, relata a satisfação em ocupar as ruas de Salvador nesse aniversário: “Pra mim é muito gratificante colocar o bloco na rua mais um ano. Somos o primeiro bloco afro e há 45 anos ininterruptos estamos desfilando no Carnaval mesmo com toda dificuldade que a gente enfrenta, então é hora de celebrar as conquistas que acompanham o surgimento do Ilê Aiyê, essa transformação que a cidade sofreu na musicalidade, na estética, no resgate da autoestima do povo negro e, sobretudo, no despertar desse sentimento de negritude, que fez com vários outros blocos afro surgissem na Bahia, no Brasil e até no mundo”.

Desde 1974 quando fez o primeiro desfile, responsável por ressignificar o Carnaval de Salvador e possibilitando o acesso do povo negro à maior festa de rua do planeta, a atuação do Ilê no combate ao racismo e compromisso para uma educação anti-racista mostram que a agremiação extrapola os limites do Carnaval.

“Eu sou professora alfabetizadora e tive a honra de, entre 1999 a 2003, ser capacitada pelo Ilê Aiyê. Eles tinham um projeto de Extensão Pedagógica. Durante o curso, tive como professores a Makota Valdina Pinto, Jorge Conceição, Jonatas Conceição, Ana Celia Silva que me ensinaram a trabalhar com a história da África e da Cultura Afro Brasileira antes mesmo da Lei 10639 existir. Sou eternamente grata ao Ilê Aiyê, aos seus cadernos pedagógicos, que eu tenho todos”.

ENCONTRO DE RAINHAS

Enquanto Daniele Nobre, a Deusa do Ébano 2019 se preparava para ser apresentada oficialmente, a primeira rainha do Ilê Aiyê, Maria de Lourdes Cruz, que reinou no desfile do bloco afro no Carnaval de 1976, relembrou os tempos em que esteve com a coroa.

“Emoção muito grande em ser a primeira rainha, ainda mais que era em uma época diferente. Rainha sempre existiu, mas rainha negra era difícil e o Ilê Aiyê abriu este espaço. Antigamente o negro não usava vermelho (…) não achava que tinha uma roupa ou um cabelo adequado para ir para os lugares. Hoje se chamarem: ‘vumbora ali’, você usa um torso ou uma trança africana e vai para qualquer lugar e quando você chega ainda é destaque, na simplicidade que você está”, conta Dona Mirinha ou Tia Rainha, como é respeitosamente chamada pelas deusas do ébano, título dado às rainhas do bloco que a sucederam.

Nos minutos que antecediam à saída do bloco, no primeiro desfile de comemoração dos 45 anos do Ilê Ayê, Daniele Nobre, eleita Deusa do Ébano 2019 falou das suas expectativas: Estou ansiosa para chegar na Avenida para dançar e para mostrar porque eu fui eleita. Não só pela minha beleza, mas também pela minha dança e pela minha simpatia”.