Sequelas da Chikungunya nas articulações podem durar meses

Aumento de notificações em mais de 400% na Bahia motivou implantação de programa para tratamento ambulatorial da doença

O número de notificações da Chikungunya na Bahia, em comparação ao mesmo período de 2019, cresceu 480,1%, de acordo com o último boletim epidemiológico de arboviroses divulgado pela Secretaria de Saúde da Bahia, em junho. O elevado número de casos em meio à pandemia de novo coronavírus motivou a implantação do Programa de Tratamento de Chikungunya, com foco no atendimento ambulatorial.

O programa é direcionado a pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado da doença, apresentando sintomas de dor articular decorrentes do quadro de infecção viral na fase aguda (até 15 dias do primeiro sintoma) ou subaguda (entre 15 a 90 dias após o primeiro sintoma). O atendimento é feito pelo Serviço de Reumatologia do Hospital Cárdio Pulmonar, uma vez que cabe a essa especialidade o tratamento da patologia.

Como explica o reumatologista Alexandre Ibrahim Uehbe, coordenador do Centro de Infusão de Medicamentos do Hospital Cárdio Pulmonar, a infecção por Chikungunya causa sintomas típicos de uma virose, como: febre, náuseas, vômitos, dor de cabeça, mal estar e a principal característica são as dores pelo corpo com muita dor nas juntas e inchaço (principalmente nas mãos, punhos, ombros, joelhos e tornozelos), em geral de forma simétrica.

“O paciente pode também apresentar “pintinhas” ou manchas avermelhadas com coceira pelo corpo e o quadro agudo dura até 15 dias, com cura espontânea”, completa.

“Em caso de complicações, no entanto, há a permanência das dores e inchaço nas articulações por meses ou até anos, impedindo ou dificultando a retomada das atividades do dia a dia”, completa o médico, chamando a atenção para uma estimativa Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de que 50 a 70% dos infectados que não foram tratados de forma adequada podem desenvolver dores crônicas nas articulações após a fase aguda.

Diante disso, pesquisadores da Fiocruz realizaram um estudo com 230 pessoas de municípios do Ceará e da Bahia, entre 2016 e 2018, para identificar os principais fatores de risco na fase aguda da Chikungunya. O objetivo é tratar, já no início, pacientes com probabilidade de desenvolver dores nas articulações a longo prazo. O estudo, publicado em junho deste ano, consegue prever que 8 em cada 10 indivíduos continuarão com dor articular por pelo menos um ano.

“Para evitar as sequelas, o paciente precisa ter atenção redobrada, principalmente na fase aguda da Chikungunya, que é a inicial. Os sintomas aparecem do 2º ao 12º dia da picada do mosquito Aedes aegypti e é necessário fazer o diagnóstico correto, seguindo as recomendações médicas. Isso significa manter repouso absoluto, ingerir bastante líquido e evitar a automedicação, o que pode levar a um quadro mais grave com hemorragias e comprometimentos renais”, alerta o especialista.

Tratamento

De acordo com os sintomas, o tratamento da Chikungunya é feito com o uso de analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios (hormonais ou não) para aliviar febre e dores. “Em casos de sequelas mais graves, e sob avaliação médica conforme cada caso, pode ser recomendado tratamento medicamentoso a longo prazo e fisioterapia”, orienta, destacando a importância da avaliação do especialista já no início dos sintomas.

“Não é necessária a busca pela emergência, mas é importante que o paciente se submeta a uma avaliação ambulatorial e receba as orientações para o tratamento”, recomenda.

O médico chama a atenção que não há vacina contra a Chikungunya. Assim como a Dengue, Zika e Febre Amarela, a arbovirose é transmitida pela picada do Aedes aegypti, cabendo também à população a tarefa de eliminar água parada que pode servir de criadouro do mosquito.

Conheça o programa

O atendimento pelo Programa de Tratamento de Chikungunya é realizado com hora marcada por uma equipe de reumatologistas e as consultas e exames necessários são realizados no próprio Centro Médico Cárdio Pulmonar, com possibilidade de execução no mesmo dia da consulta e podem incluir exames laboratoriais e de imagem, como raio-X e ultrassonografia.

O diagnóstico da Chikungunya é clínico, feito por um médico e confirmado com exames laboratoriais de sorologia e de biologia molecular ou com teste rápido (usado para triagem). Em situações de epidemia a maioria dos casos serão confirmados por critério clínico.

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