Seis anos após morte de ialorixá, Bahia tem 1ª condenação por racismo religioso

A evangélica Edneide Santos de Jesus foi a primeira pessoa condenada por racismo, na modalidade preconceito religioso, na Bahia. Ela atacou a ialorixá Mildredes Dias Ferreira, conhecida como Mãe Dede de Iansã, que morreu de infarto em 2015, aos 90 anos, após ter saúde agravada pelos atos. Os abusos racistas, que aconteceram há seis anos no Terreiro Oyá Denã, em Camaçari, região metropolitana de Salvador, começaram em agosto de 2014.

Conforme o G1 Bahia, a sentença foi publicada na segunda-feira (07/06) e a mulher terá que prestar serviços à comunidade, além de ter que se apresentar mensalmente à Justiça.

Edneide gritava insultos como “sai, satanás” e jogava sal grosso em frente ao terreiro de candomblé. Edneide faz parte da Igreja Casa de Oração Ministério de Cristo, que fica em frente ao terreiro.

Ainda segundo a publicação, a atual ialorixá da Casa, Mary Antônia Monteiro, filha de criação da vítima, lembrou que os ataques “contribuíram muito” com a perda, já que a vítima estava doente. “Ainda pedir que eles fizessem o evangelismo deles, mas que tivessem o horário. Eles não respeitaram, era a noite toda. Na véspera dela falecer, foi sábado, a noite toda. Amanheceram o dia com a vigília”, relembrou.

“Minha mãe nunca se viu com um problema desse. Em frente à roça, a igreja abriu e daí para cá era muito sotaque [insulto], jogavam sal nas portas, dançavam aqui na frente do terreiro”, acrescentou Mary Antônia.

“Foi um processo muito doloroso, em meio às delegacias, a gente ter que estar debatendo com eles em meio a esses órgãos, e a gente via a impunidade. Infelizmente, até então, seis anos, a gente via a impunidade. Nós levamos vários tipos de provas, filmagens”, afirma uma das abiãs do Terreiro Oyá Denã, Paula Nascimento, que acompanhou todo o processo de denúncia do caso à polícia.

“Eram noites e mais noites de vigília na rua, em frente à nossa roça, muitos dizeres deles de ‘sai, satanás’, que eles iriam vencer, que a gente iria sair daqui”, conta Paula Nascimento.

O promotor de Justiça Edvaldo Vivas Gomes, disse à TV Bahia que essa condenação, apesar de ser tardia e a primeira, tem que ser celebrada, para lembrar à sociedade que os crimes de racismo são imprescritíveis, ou seja não devem ficar se uma resposta legal, independente do tempo.

“Esse tipo de vitória a gente sempre tem que celebrar, porque por mais que os crimes de racismo sejam imprescritíveis, as condenações demoram muito de chegar. Então a gente tem que comemorar mesmo, para que cada vez mais a gente possa estar efetivamente dando cabo desse tipo de problema, e garantindo efetividade para que essas discriminações possam acabar de vez nesse país e no estado da Bahia”, finalizou Gomes.

O desembargador Lidivaldo Britto avalia que essa condenação é simbólica, porque é a primeira condenação por racismo religioso na Bahia.

“É um caso emblemático, porque é a primeira vez que um crime de intolerância religiosa tem uma condenação da primeira instância e tem uma confirmação da condenação na segunda instância do Tribunal de Justiça. É um caso onde o tribunal demonstra para a sociedade que esse crime é punível e que, quem cometer esse crime, vai ser responsabilizado e sancionado”, concluiu Britto.