O gigante não dorme

A força das ruas mostra que a democracia brasileira vigia, mas o voto consciente continua sendo o maior desafio.

É de conhecimento cediço que o Congresso Nacional é o Poder Legislativo federal do Brasil, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, sendo a casa onde são feitas e votadas as leis do país. Não devemos esquecer que ele, em tese, é o espelho do pensamento do povo brasileiro.

A recente manifestação do povo nas ruas foi um ato democrático e de suma importância, porque demonstrou que o poder é relativo ao citado órgão legislativo. Serviu de advertência.

Entretanto, no sistema de pesos e contrapesos, é preciso salientar que a indecente PEC da blindagem não seria concedida pelo Presidente da República; ele, por certo, não concordaria com a anistia. Ademais, o Supremo declararia a inconstitucionalidade da malfadada PEC, porquanto ela é ilegal: sua tramitação e discussão feriram de morte a Carta Magna.

Assim, a multidão nas ruas foi bom para mostrar que o gigante Brasil não dorme , cochila apenas. A referida manifestação demonstrou que a nação está atenta a outros atos que turvam a democracia.

Sociologicamente, porém, o lado negativo é evidente: os cidadãos e cidadãs irão, nas próximas eleições, eleger, em sua maioria, os mesmos representantes que estão sendo repudiados nas ruas. Para reclamar, é preciso saber votar.

A classe social mais esclarecida e as instituições democráticas precisam agir com mais firmeza durante a escolha de seus representantes políticos, evitando o desastre que tem se repetido. Com efeito, Senado e Câmara sofrem de escassez de cérebros e de projetos. A esperança de melhora é pequena no horizonte político.

Antigamente, no Congresso, cruzávamos, no dia a dia, nomes como Ulisses Guimarães, Mário Covas, Fernando Lyra, Ricardo Fiuza, Maurício Corrêa, Roberto Campos, Miguel Arraes, Paes de Andrade, para citar apenas os que já se foram. Os salões ,na época verde e azul da Câmara e do Senado ,vibravam com uma energia especial, a republicana.

Neste clima, certa feita indagaram o velho Ulisses sobre o Congresso Nacional. O mesmo respondeu: “Está achando ruim essa composição do Congresso? Espere a próxima: será pior. E pior, e pior.” Vaticinou o homem que empenhara a vida pela reconstrução da democracia, completando: “Temos algumas poucas cabeças boas aqui. É necessário juntá-las onde quer que estejam e fazê-las trabalhar num rumo só: para a frente, sempre.”

É triste constatar que Ulisses foi profético. Sem pressão social e consciência da importância do voto, a tendência é que o Congresso seja pior, se isso for possível.

Plácido Faria
Plácido Faria é advogado criminalista, já atuou como promotor de Justiça e integrante do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – placidofaria@yahoo.com.br
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