Em cinco anos, Bahia perde 2,1 mil leitos de internação no SUS

Não precisa atuar na área para saber que a saúde pública no Brasil está um caos. Superlotação, falta de suprimentos e longas filas de espera para uma simples consulta são problemas comuns. Aqueles que conseguem ser atendidos e precisam de internação também sofrem. Uma análise feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), utilizando dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, revelam que 23.565 leitos de internação foram desativados na rede pública de dezembro de 2010 até 2015. Deste total, 2.126 eram na Bahia, resultado que coloca o estado na quarta posição no ranking de pior desempenho.

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Para o presidente do CFM, Carlos Vital, o levantamento mostra, em números, a falta de leitos vivida diariamente por médicos e pacientes nos hospitais brasileiros, o que acaba provocando atrasos no diagnóstico e no início do tratamento, aumentando a taxa de mortalidade. “A insuficiência de leitos para internação ou realização de cirurgias é um dos fatores para o aumento do tempo de permanência nas emergências. São doentes que acabam ‘internados’ nas emergências à espera do devido encaminhamento para um leito adequado, correndo riscos de contrair infecções”, constata.

De acordo com a pesquisa, na Bahia, a área mais impactada com essa redução foi a pediatria, que perdeu 910 leitos de internamento nos últimos cinco anos. Os leitos cirúrgicos também merecem destaque, já que passou de 6.064 unidades, em 2010, para 5.382, em 2015. A área obstétrica também não fica atrás: registrou uma queda de 549 leitos no mesmo período. No estado, ainda que tímido, as únicas altas na quantidade de leitos de internamento foram: a área clínica, que ganhou 83 leitos nos últimos cinco anos, e hospital/dia (quando a permanência do paciente na unidade é requerida por um período máximo de 12 horas), que pulou de 221, em 2010, para 278, no ano passado.

Salvador também registrou queda no número de leitos de internamento, com 340 unidade a menos em 2015 quando comparado com 2010. E, assim como no estado, os leitos cirúrgicos também foram o destaque negativo, com uma redução de 281 unidades nos últimos cinco anos. Também fecharam leitos de internação as seguintes áreas: pediatria (-170), obstetrícia (-50) e hospital DIA (-6), além de outras especialidades (-126). Na outra ponta, a área clínica ganhou 293 unidades para internamento no mesmo período, ampliando de 1.413 para 1.706.

Nacional – Dentre as especialidades mais afetadas no período, em nível nacional, constam psiquiatria, pediatria cirúrgica, obstetrícia e cirurgia geral. Já os leitos destinados à ortopedia e traumatologia foram os únicos que sofreram acréscimo superior a mil leitos.

“Na realidade atual, só resta ao usuário do SUS rezar para não adoecer e não precisar de internação hospitalar. Sufocados com o congelamento da tabela SUS, hospitais filantrópicos estão fechando leitos ou cerrando as portas. Governos e municípios também não estão conseguindo manter suas estruturas hospitalares, que estão cada dia mais sucateadas. Mas, como a doença não avisa, as filas de espera não param de crescer e o que vemos são doentes fragilizados, se acumulando em cadeiras e macas improvisadas nos corredores dos prontos-socorros”, lamenta o 1º secretário do CFM, Hermann Tiesenhausen.

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Estados e capitais – Em números absolutos, os estados das regiões Sudeste e Nordeste foram os que mais sofreram redução no período. Só no Rio de Janeiro, por exemplo, pouco mais de sete mil leitos foram desativados desde 2010. Na sequência, aparece Minas Gerais (-3.241 leitos) e São Paulo (-2.908). No Nordeste, a Bahia sofreu o maior corte (-2.126). Entre as capitais, foram os fluminenses os que mais perderam leitos na rede pública (-2.503), seguidos pelos fortalezenses (-854) e brasilienses (-807).

Na outra ponta, apenas oito estados apresentaram números positivos no cálculo final de leitos SUS ativados e desativados nos últimos cinco anos: Rio Grande do Sul (806), Mato Grosso (397), Rondônia (336), Santa Catarina (121), Espírito Santo (115), Amapá (87), Mato Grosso do Sul (56) e Tocantins (15). Nas capitais, 12 delas conseguiram elevar a taxa de leitos, o que sugere que o grande impacto de queda tenha recaído sobre as demais cidades metropolitanas ou interioranas dos estados.

Enquanto os 150 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS perderam quase 24 mil leitos desde 2010, o quantitativo na rede suplementar e nas unidades privadas aumentou em 2,2 mil o número de leitos no mesmo período. Ao todo, 17 estados elevaram o montante na rede “não SUS” até dezembro de 2015. Apenas Rio de Janeiro e Ceará sofreram decréscimos significativos, da ordem de 1.751 e 1.042 leitos a menos, respectivamente.

Leitos de observação e UTI – O levantamento do CFM apurou ainda os leitos de repouso ou de observação, utilizados para suporte das ações ambulatoriais e de urgência, como administração de medicação endovenosa e pequenas cirurgias, com permanência de até 24 horas no ambiente hospitalar. Nesta categoria, houve um aumento de 14% na quantidade de leitos no período.
Também foram apurados pela autarquia os leitos reservados às Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

Ao contrário dos leitos de internação, essa rede apresentou alta de 23%, passando de 33.425 em dezembro de 2010 para 40.960 no mesmo mês de 2015. Apesar do acréscimo, uma análise detalhada do CFM constatou indícios de que quantidade de leitos de UTI na rede pública (49% do total) ainda seja insuficiente para atender as demandas da população. Leia mais em 86% das cidades brasileiras não possuem nenhum leito público de UTI.

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Abaixo da média mundial – Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) não recomendem ou estabeleçam taxas ideais de leitos por habitante, é possível observar que, em relação a outros países com sistemas universais de saúde, o Brasil aparece com um dos piores indicadores.

De acordo com o relatório de Estatísticas de Saúde Mundiais da OMS de 2014, o Brasil possuía 2,3 leitos hospitalares (públicos e privados) para cada grupo de mil habitantes no período de 2006 a 2012. A taxa é equivalente à média das Américas, mas inferior à média mundial (2,7) ou as taxas apuradas, por exemplo, na Argentina (4,7), Espanha (3,1) ou França (6,4).

Segundo o relatório, a densidade de leitos pode ser utilizada para indicar a disponibilidade de serviços hospitalares. As estatísticas de leitos hospitalares são geralmente extraídas de registros administrativos de rotina, como as bases do CNES, no caso do Brasil.

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