O sentimento popular é diferente do sentimento político

A disputa pelo governo da Bahia só acontece em 2026, mas os bastidores políticos já estão fervendo. Na última terça-feira (14/10), o jornalista Levi Vasconcelos, em sua coluna no A Tarde, destacou um movimento que vem chamando atenção: a suposta migração de lideranças que apoiaram ACM Neto (União Brasil) em 2022 para o grupo do governador Jerônimo Rodrigues (PT).

O exemplo citado foi o da prefeita de São Sebastião do Passé, Nilza da Mata (PSD), que se reaproximou da base governista. Levi descreveu o cenário com a experiência de quem acompanha de perto o xadrez político baiano: “O toma lá, dá cá é do jogo — toma lá tua estrada, hospital ou escola e dá cá meus votos”.

Segundo o jornalista, Jerônimo tem a vantagem de contar com o apoio do presidente Lula e de um Estado financeiramente saudável, enquanto ACM Neto pode contar apenas com a Prefeitura de Salvador. Mas há um ponto que Levi não explorou, e que é crucial no debate: o sentimento do cidadão não é o mesmo do político.

Enquanto políticos buscam apoio e benefícios, sejam pessoais ou para seus municípios, como convênios, obras e investimentos, o eleitor comum está insatisfeito com a gestão estadual. A percepção nas ruas, nas redes sociais e até entre prefeitos é que Jerônimo ainda não conseguiu imprimir uma marca própria, nem manter o mesmo nível de aprovação que seu antecessor, Rui Costa, teve até o fim do mandato.

Nos corredores da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) e da União dos Municípios da Bahia (UPB) o discurso é recorrente:

“Eu vou votar porque vai me dar R$ 100 milhões”. Leia-se que os valores são convertidos em promessas de obras e investimentos. O problema é que esse tipo de apoio não reflete o sentimento popular. Fora da militância petista e do núcleo histórico de partidos aliados, como PSB e PCdoB, poucos gestores declaram apoio espontâneo a Jerônimo sem contrapartidas financeiras.

Enquanto isso, ACM Neto mantém viva uma base eleitoral enxuta, mas fiel e cansada do PT. Veja o exemplo do prefeito Otoniel, de Barreiras e seu líder político, Zito. O gestor já esteve oito vezes com Jerônimo e falou sobre parcerias. Porém, quando o assunto é eleitoral, o convidado é Neto. Outros dois gestores, Zé Ronaldo (Feira de Santana) e Zé Cocá (Jequié) costumam aparecer em fotos com integrantes do Governo quase que semanalmente. Apesar disso, refutam declaração de apoio ao petista.

O ex-prefeito de Salvador teve mais de 4 milhões de votos no segundo turno de 2022 — um feito expressivo diante da máquina estadual petista. E a pergunta que fica é: qual o motivo para o eleitor de Neto mudar de voto? As pesquisas mais recentes reforçam o alerta dentro do governo: a desaprovação de Jerônimo é altíssima, sobretudo nas grandes cidades, algo inédito para o PT na Bahia desde 2006. Em 2021, por exemplo, Rui Costa, a um ano da eleição, ostentava mais de 70% de aprovação. Jerônimo precisa melhorar, sobretudo na segurança pública e na saúde. Não adianta inaugurar VLT se Dona Maria não poder sair de casa por causa dos tiroteios diários.

Até 2026, como diz o ditado político, “muita água ainda vai rolar” — mas o alerta vermelho já acendeu no Palácio de Ondina.

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