E AÍ, CARA PÁLIDA? O discurso de pobre de Wagner e a vida de milionário

Durante muitos anos, o senador Jaques Wagner gostou de chamar seus adversários de “cara pálida”. Era uma expressão usada para desqualificar quem pensava diferente e reforçar a narrativa de que apenas um lado da política representava o povo. Mas a política tem uma característica implacável: os fatos sempre aparecem.

Nos últimos dias, o ‘Paizão’ que articulou um apartamento de milhões para a filha e sabe lá o que mais, afirmou que os dólares e euros apreendidos pela Polícia Federal estavam guardados em um envelope com o timbre do Senado e que o dinheiro era fruto de diárias recebidas em viagens oficiais.

A explicação não resistiu aos desdobramentos do caso. Investigadores da Polícia Federal negaram a versão apresentada pelo principal líder político da Bahia. Além disso, qualquer agente público sabe que diárias são pagas por depósito em conta bancária, e não entregues em envelopes.

Ao mesmo tempo em que tenta desacreditar a investigação que apura o rombo bilionário provocado pelo banco Master, o senador passou a atacar a própria Polícia Federal, instituição responsável por conduzir o inquérito. Mas talvez o episódio que mais simbolize o abismo entre o discurso e a prática tenha sido revelado pelo Informe Baiano.

Documentos da investigação da Compliance Zero apontam que familiares de Jaques Wagner receberam ingressos para um show da cantora Taylor Swift, em Los Angeles, adquiridos por uma empresa ligada ao empresário Augusto Lima, o Guga. O valor informado é de R$ 63.339 apenas pelos ingressos. Sessenta e três mil reais. Esse número, por si só, já diz muito.

Enquanto milhões de brasileiros vivem com um salário mínimo, fazem contas para pagar aluguel, energia elétrica, água, transporte e alimentação, a investigação descreve um padrão de gastos completamente distante da realidade da população.

E não se trata apenas do valor dos ingressos. Uma viagem internacional desse porte envolve passagens aéreas, hospedagem, deslocamentos e outras despesas que ampliam ainda mais essa diferença.

O problema não é gostar de música. Nem viajar. Muito menos assistir a um show internacional. O problema é que aquela pessoa que construiu uma carreira política inteira falando em combate à desigualdade, em defesa dos mais pobres e em justiça social, perdeu a noção do dinheiro.

Wagner mora em imóvel de R$20 milhões, no metro quadrado mais caro de Salvador, o Corredor da Vitória. Dizem que sua fazenda ou sítio em Andaraí é digno de um ensaio da revista Caras. E pelo visto o todo poderoso ex-líder de Lula não consegue mais compreender a rotina de quem ganha pouco mais de R$ 1.500 por mês. Será que ele entende a mãe que escolhe entre comprar carne ou pagar uma conta? Compreende o aposentado que espera meses por um exame no SUS? Falta coerência entre aquilo que se fala e aquilo que se vive.

O caso do carioca com ascendência baiana ainda será analisado pela Justiça, e todo investigado tem direito à ampla defesa e ao contraditório. Esse é um princípio básico do Estado de Direito. Mas o debate político não pode ignorar aquilo que já veio a público.

A sociedade tem o direito de questionar se existe compatibilidade entre um discurso permanente de defesa dos mais pobres e um padrão de vida que, para a imensa maioria dos brasileiros, simplesmente não existe.

No fim das contas, talvez o “cara pálida” de hoje não seja o adversário político. Seja o cidadão comum, que trabalha, paga impostos, enfrenta filas, aperta o orçamento todos os meses e olha, perplexo, para uma realidade que parece pertencer a outro mundo.

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