Saiba qual é a palavra que o governador Rui Costa não gosta de ouvir

José Carlos Teixeira*

“Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer tudo”
(Uma palavra, de Chico Buarque)

Sabem os leitores qual a palavra que o governador Rui Costa não pode ouvir sem sair do sério, sobretudo quando ela é proferida por várias pessoas, ou melhor, gritadas em coro, como naquelas boas manifestações de protesto que o PT fazia antigamente, antes de ser governo?
Não, gentil leitora. Não é o nome do candidato a governador da oposição. Ele mesmo até pronuncia o nome de ACM Neto. Para falar mal, é claro, afinal, são adversários políticos e estão em plena campanha eleitoral, embora oficialmente ela só deva começar em agosto.

Também errou, apressado leitor. Não é “Ideb”, aquele índice que mede a qualidade do ensino e no qual a Bahia tem o sexto pior desempenho nos anos iniciais do ensino fundamental, o segundo pior nos anos finais e o terceiro pior no ensino médio. Situação que a oposição não se cansa de ficar relembrando, como se não tivesse outra coisa para fazer.

Também não é “respiradores”, embora o governador não esconda a irritação quando os deputados da oposição, volta e meia, lhe cobram esclarecimentos sobre o intrincado caso da compra de um lote desse tipo de equipamento médico feita pelo governo baiano, que nunca recebeu a mercadoria, embora tenha feito o pagamento antecipadamente.

Como ocorre com qualquer pessoa, algumas palavras provocam irritação e outros sentimentos negativos em Rui Costa, além das já citadas. Bolsonaro, é uma delas. Leão, outra (esta, porém, só mais recentemente, depois que seu parceiro, o vice-governador João Leão, bandeou-se para a oposição).

Mas há uma que mais lhe desperta tais sentimentos de desagrado: “Cabula”, o nome de um bairro da capital. Isso mesmo: Cabula!
A origem de tal ojeriza está em uma operação da Polícia Militar ocorrida em 5 de fevereiro de 2015, que resultou na morte a tiros de 12 jovens negros, entre eles quatro adolescentes. Um fato que chocou a população, ficou conhecido como “a chacina do Cabula” e teve repercussão internacional.

Na época, numa tentativa canhestra de livrar a cara dos policiais, Rui Costa disse que a polícia age com um artilheiro na frente de um gol, que tem de decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro. E comparou:
“Depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado.”

A Polícia Civil concluiu que os nove policiais que participaram da operação foram recebidos a bala e agiram em legítima defesa, mas uma investigação paralela do Ministério Público, com base em laudos técnicos, indicou que foram execuções sumárias.
O inquérito foi encaminhado à Justiça e julgado em menos de um mês – um raríssimo caso de celeridade no Judiciário baiano –, com a absolvição dos nove policiais. O Ministério Público, porém, conseguiu anular a sentença, alegando irregularidades no julgamento, e o processo segue mofando nas prateleiras do Tribunal de Justiça.

Desde então, tornou-se comum alguém ou um grupo de pessoas, em aparições públicas do governador, gritar: Cabula! Cabula! Cabula! Até mesmo em eventos internos do PT, como na etapa do 5º congresso nacional do partido realizada em Salvador, em junho de 2015.

Ao lado do ex-presidente Luiz Inácio lula da Silva e de outros figurões do comando nacional do PT, um constrangido governador Rui Costa atravessou a plateia lotada do centro de convenções do Hotel Pestana ouvindo “Cabula! Cabula! Cabula!…”, gritado em coro por um grupo de filiados negros.

Também desde então, a Polícia baiana segue se comportando como um artilheiro em frente ao gol. A Bahia é o segundo estado que mais mata em operações policiais, atrás somente do Rio de Janeiro, segundo pesquisa realizada pela Rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

Em tempo: Nei Lopes, no Dicionário Banto do Brasil, diz que cabula tem a mesma raiz de encabular, este relacionado ao quimbundo kulebula, no sentido de “envergonhar”.

*José Carlos Teixeira é jornalista, graduado em comunicação social pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduado em marketing político pela Universidade Católica do Salvador.

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