Bichos ou seres humanos? A barbárie com Nego Pom sinaliza para a crise do pagode e do tráfico de drogas

Tarde de terça- feira, 21 de junho! Ele errou o caminho e de repente, viu a morte chegar. Foi espancado barbaramente a pedradas e ainda covardemente, a tiros. Roubaram também a moto e o celular. O crime demonstra raiva. Foi socorrido por policiais, mas não resistiu e morreu no dia seguinte, no Hospital do Subúrbio. Independente do que Marcos Venício Santos de Jesus, 32 anos, o popular Nego Pom, foi fazer e se ele tinha algum envolvimento com um marginal, o erro não justifica uma morte cruel como essa, uma violência desmedida e desproporcional. O modus operandi da facção Katiara, que expulsou a rival Caveira e atualmente domina a rua onde aconteceu o fato, levanta diversos questionamentos. São “bichos” ou seres humanos? Pois matar uma pessoa e ainda da forma cruel como aconteceu, não é algo comum e típico de um racional. Cadê os protestos com pneus e faixas em vias públicas? Cadê os vídeos com flagrantes registrados por moradores em seus celulares?

O segundo ponto que questiono é: errar um caminho é motivo para um assassinato? De acordo com familiares, ele pretendia ir ao bairro de Vista Alegre, que é vizinho a localidade do Beira-rio, em Periperi, onde foi assassinado. Fatos semelhantes a esse já ocorreram no Rio de Janeiro e infelizmente, tem se tornado comum. Em 2015, por exemplo, dois crimes no estado fluminense repercutiram em todo país. A morte da idosa que foi atacada por marginais por engano ao entrar em uma favela em Niterói sem querer guiada pelo GPS e a execução de um alpinista que também errou o caminho. Ou seja, tanto no Rio, quanto na Bahia, não temos o direito constitucional de ir e vir a qualquer lugar, a qualquer hora. Esqueça! Negar isso é romantismo ou tentativa de subestimar a nossa inteligência. Para entrar em determinados lugar é necessário, sim, a autorização dos traficantes. Do contrário, você corre o risco de terminar como Nego Pom. E outra, nem ouse tirar uma foto com dois dedos apontados na comunidade dominada pela facção de três dedos. O castigo é certo. Cortes de cabelo, uso de bonés, tatuagens e gírias também identificam as quadrilhas.

A quem interessava a morte do músico da banda Guetto é Guetto, Nego Pom? É fato que os artistas do pagode afirmam que são representantes das comunidades. Nos shows, enviam mensagens calorosas para os bairros e são exaltados nas redes sociais. Então, como é que acontece uma barbaridade dessa? De repente, um representante querido, é morto. Estranho! Será que isso demonstra o descontrole dessa grande indústria que é o tráfico na Bahia? Prova disso é que existe uma disputa acirrada com, no mínimo, cinco empresas. Voltemos ao subúbio. A região, hoje, é disputada por três facções criminosas: Caveira/ BDM – Bonde do Maluco, CP – Comando da Paz e Katiara. O negócio é tão lucrativo, que tem vários “comandos”.

Eu conversei com dois moradores da região de Periperi. O primeiro, que entrevistei na quarta, dia 22 de março, chamarei de “Amarelo”. Ele testemunhou a agressão. “Ele chegou no Beira-rio procurando Jefinho e os caras falaram: ‘tá procurando alemão aqui?’ Ele disse que Jefinho tava devendo dinheiro a ele e os caras deram um tapa na cara. Aí ele partiu pra cima do traficante e os comparsas atiraram. Depois foram várias pedradas na cabeça e os tiros”. Ainda de acordo com a testemunha, Jefinho, é um traficante da facção Comando da Paz que atua na Rua do Paraguari e Nego Pom tinha sociedade com o marginal. “O que rola aqui é que ele tinha parceria com Jefinho com uma banda, tá ligado? Mas não se envolvia em nada do tráfico. Era cara do bem, cara homem. Eu conhecia ele. Ele era sócio do cara e foi cobrar o dinheiro”, contou. A banda em questão é a Hit Hall’s, no qual Nego Pom era produtor e apesar de não ter nenhuma música de sucesso, já participou de programa de tevê. Quem “bancou”? Essa relação precisa ser investigada.

Já nesta sexta-feira (24), conversei com um outro morador, que vou chamar de “Azul”. Ele não testemunhou o crime, mas conhece bem a rotina da região. “Azul” negou a versão anterior e disse que Nego Pom, na verdade, foi vítima de uma emboscada planejada pelo seu suposto sócio, o traficante Jefinho. “Ele não queria cumprir o acordo que fez com Pom e armou com o irmão Marreta, que também é da parada. Chamaram ele pra vim pegar o dinheiro e o mataram. Esses caras tocam o terror no Congo. Se a Polícia não sabe, agora vai saber. Essa história de errar o caminho não existe. Marquinhos (Nego Pom) vinha aqui com frequência”, revelou.

A insegurança no Brasil chegou a um patamar que já pode ser considerada uma guerra civil. O último estudo do Mapa da Violência mostra que em 2014 o país atingiu a marca recorde de 59.627 homicídios. A Bahia registrou crescimento de 132,6%. E infelizmente, apesar de toda comoção em torno da morte de Nego Pom, sabemos que ele é mais uma vítima na estatística. O corpo do jovem músico foi enterrado na quinta (23), no Cemitério Municipal de Pirajá, em meio a uma multidão revoltada, triste e inconsolável.

Por Ramon Margiolle

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