Que polícia nós queremos? O belo gesto de Amado Cigano que a PM resolveu “apurar”

Por Ramon Margiolle

O “policial cantor” Amado Cigano, também conhecido como Ferreirinha, se empolgou, abriu o coração e encantou os internautas. Um vídeo viralizou nas redes sociais neste sábado (30/01) após o militar cantar fardado em um karaokê em Itapuã, bairro onde morou o saudoso Dorival Caymmi, em Salvador. Amado foi reconhecido por um fã, que fez o pedido e o “praça artista” não titubeou: deu uma “palhinha” da música ‘Folha Seca’, do ídolo Amado Batista.

“Sem preconceitos”, soltou a voz e aproximou a Polícia Militar do povo.

“Era uma tarde tão triste quando ela partiu; Na curva daquela estrada ela então sumiu; Era como folha seca que vai onde o vento quer; Me enganei quando dizia, tenho uma mulher”, celebrou sorrindo enquanto os colegas de farda observavam atentamente e ao mesmo tempo com o coração transbordando de felicidade. Afinal de contas, por trás da farda há um ser humano.

E o que o povo fez? O óbvio: comemorou, elogiou, parabenizou e não gostou nem um pouco da suposta punição ao policial denunciada pelo deputado estadual Prisco, do PSC. Segundo o parlamentar, Amado Cigano foi afastado da Operação Apolo, unidade da PM em que agentes realizam serviços extras.

Ora, comandante-geral da Polícia Militar, coronel Paulo Coutinho, não precisamos dizer que os tempos atuais exigem uma polícia humanitária. Em nenhum momento o soldado atrapalhou o serviço ou denegriu a imagem da instituição. Não há espaço para retroceder e compactuar com uma polícia violenta. A PM já deveria ter emitido uma nota de apoio ou até um simples elogio. Mas a atitude foi diferente: informou que “a conduta do policial será apurada”. Vale ratificar que o mesmo já teria sido afastado da Operação Apolo e portanto, a punição já é uma realidade.

Qual conduta vai apurar? Qual crime ocorreu? Vão crucificar o policial porque teve um gesto humano? O fato é que não tem o que apurar. Situações como essa também não são novas por aqui: major já dançou com Ivete Sangalo em pleno Carnaval e capitã já sambou com o povo no Nordeste de Amaralina. Em um momento em que a Bahia atravessa sérios problemas na área da segurança pública com centenas de homicídios, um simples policial, sem nenhuma intenção, conseguiu manter acesa a chama da boa convivência entre PM e sociedade. A oportunidade de transformar em algo positivo não pode ser descartada.

A condução da PM mais uma vez é totalmente equívocada. Enquanto em outros estados, há uma luta para humanizar, aqui na Bahia, em um governo do PT, dos trabalhadores, a ideia é apurar e punir. Afinal, QUE POLÍCIA NÓS QUEREMOS? Querem uma polícia que fica batendo no povo e atirando, é? Querem praças e oficiais respondendo “broncas” no judiciário e revoltados? As associações da categoria precisam se posicionar veementemente.

Uma capitã citou em entrevista, recentemente, que quando um marginal está armado é porque tem medo do policial. Não houve punição, não houve nenhum esclarecimento. A PM precisa de GESTÃO ( e breve falarei sobre isso). Mais: não adianta ficar soltando vídeo encomendado do tipo: “enquanto ocorre assalto na Barra, policial canta em Itapuã”. Vamos melhorar o nível.

Abaixo, o belo momento e a repercussão do caso nas redes sociais.

Diversos elogios foram publicados no Instagram do Informe Baiano: “Uau!!! Tá fazendo o que na PM homem? Vc canta de verdade! Se joga! Já tem uma fã, eu”, disse Maria Flor6183.
“Deveria era agradecer a ele isso sim… a imagem da polícia não anda nada bem . Espero q o comando reveja e para de vaidade , que é isso q tá acontecendo com a Pm, um querendo ser mais q o outro . Enquanto isso a comunidade paga o preço’, escreveu Dany Deodato.

O lutador de MMA Zeca Predador lembrou o “grande exemplo” e afirmou esse ser o espírito do “verdadeiro caveira”.

“Policial é tão ser humano quanto outro cidadão, show irmão”, elogiou Saulo.

Os vereadores de Salvador Anderson Ninho e Sandro Bahiense também se posicionaram. O primeiro, que integra o PDT, escreveu: “tmj nesta corrente do bem, a atitude de afastar o Soldado é uma injustiça”.

Já Bahiense, que é ligado a área de segurança pública, pontuou tratar-se de um “gesto de aproximação entre Polícia Militar e comunidade” e “em certas situações precisamos reconsiderar as medidas de aplicação de conduta inadequada”. O edil disse ainda que Amado Cigano é “um grande profissional de segurança e o cantor do povo”.

Artistas também comentaram. Um print com o depoimento da banda Unha Pintada afirma: “Parabéns pelo seu talento. Por trás da farda tem um ser humano que também sonha. Estamos com você e pode contar comigo grande guerreiro”.